Segue abaixo discurso proferido pelo orador da ATM 2009/2, Guilherme G. Pereira, em sua formatura no dia 19 de dezembro de 2009.
“Magnífico Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Prof. Dr. Carlos Alexandre Neto. Digníssimo Diretor da Faculdade de Medicina Prof. Dr. Mauro Antônio Czepielevski. Ilustríssimo paranifno, Prof. Dr. Manuel Antônio Ruttkay Pereira. Demais autoridades e componentes da mesa. Caros colegas, senhoras e senhores.
Que satisfação, que alegria nos reunirmos hoje aqui para celebrar a formatura desta querida ATM 09/2, da qual eu me orgulho de fazer parte e tive a felicidade de conviver ao longo destes seis anos. Tempo de estudo, trabalho, dedicação e sacrifícios. Também de festas, amizades, conquistas e realizações. Sobretudo, seis anos de mudanças. E honrado, recebi a missão de dar voz à turma, nesta noite tão bonita e tão solene em que se processará a mais profunda mudança de nossas vidas. Até aqui, viemos, mais ou menos, protegidos por nossas famílias em nossos lares, respaldados por nossos mestres e pela excelência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Mas é chegada a hora de nossa independência, a partir de agora caminharemos com nossas próprias pernas e assinaremos com nossos próprios carimbos.
Não nos tornamos médicos de uma hora para outra. Quem nos acompanhou pode observar as transformações ocorridas em nossas aparências, atitudes, pensamentos e até no nosso modo de ver a vida. Não poderia ser de outra forma com quem, quase diariamente, entrava em contato com o melhor e o pior do ser humano, em seus momentos mais difíceis.
Não somos os únicos a mudar, a medicina em seu avanço extraordinário vem sofrendo sucessivas revoluções. Com suas imensas possibilidades diagnósticas e terapêuticas, há muito já não cabe em seis anos. Daí a quase obrigatoriedade da residência médica, praticamente um novo curso; e as freqüentes alterações no currículo. Numa tentativa da UFRGS de selecionar entre as especialidades aquilo que não poderíamos deixar de saber.
Os médicos também mudaram, daquele senhor respeitado e influente, conhecido pelo nome, detentor do saber numa cidade interiorana, passaram a uma legião de jaleco branco, anônima ao redor das grandes cidades, revezando-se em 2 ou 3 empregos para conseguir manter um digno padrão de vida. Meros assalariados para os quais bradam os ricos exigindo um serviço e os pobres exigindo um direito. Seres humanos, que uma indústria tenta seduzir e corromper, tratando saúde como um balcão de negócios, onde a cura está a venda e o que eles têm a vender é o melhor. Profissionais idealistas que o governo ilude e deturpa, tratando medicina como um sacerdócio e tentando fazer crer que a saúde neste país já beira à perfeição.
Em meio a tudo isto, sobreviver, manter a sanidade e conseguir aliar: os desejos e necessidades do paciente com o conhecimento científico atual e os recursos disponíveis, será o verdadeiro desafio que enfrentaremos a cada consulta.
O cenário é desolador e o futuro é incerto, mas vamos a ele sem medo, pois como bem lembra o ilustre Dr. Adib Jatene ‘”o oposto do medo não é a coragem, é a fé”. Isto nós temos de sobra na medicina e no Brasil. Demos prova de nossa fé quando há 6 anos atrás escolhemos e permanecemos no caminho do saber, do conhecimento e da virtude. Lembro muito bem daquela turma de 2004, usávamos bermudas e andávamos sempre com um baralho de truco, fazíamos festa nos locais mais improváveis; depois o hospital, todos com esteto no pescoço e pasta estilizada, difícil não rir relembrando nossas anamneses e exames físicos nos primeiros pacientes – e como eles eram pacientes! Por fim, o internato, de expectadores passamos a parte das equipes, segundo alguns, a parte explorada. Plantões e ambulatórios intermináveis, horas e horas de pé abrindo campo cirúrgico e resolvendo burocracias. Os únicos alunos de toda UFRGS que não foram dispensados de suas atividades durante o surto de gripe suína. Neste episódio demos mostras de nossas responsabilidades públicas. E chegamos até aqui. Quero ressaltar a importância de estarmos sentados nestas cadeiras num país onde saúde e educação nunca foram prioridade, que tantas vezes teima em nivelar por baixo e tenta absurdamente impor este nivelamento inclusive na UFRGS, um país onde os medíocres perderam a modésia e a ignorância reina soberbosa e sem vergonha, se formar em medicina é de um mérito que não cabe no diploma.
E por que estamos aqui? Por que o curso é muito bom, muito fácil? Por que a vida de médico compensa tudo, vida maravilhosa de prazeres? Não, acabei de dizer que não! Vocês é que são muito bons, vocês é que são maravilhosos.
Se o tempo permitisse, citaria o nome de cada um de vocês. Diria de onde veio, para onde vai, contaria uma história, e são tantas histórias da nossa turma, que por onde passava era elogiada. E permaneceu junta sem ser necessariamente unida, muito menos homogênea. Entre nós, tudo era votado democraticamente, até demais na minha opinião, e a cada discussão os mais diversos pontos de vista eram defendidos com argumentos, fatos e até acusações, num bombardeio de emails. Mas independente do resultado final, permanecíamos ligados, pelo semestre e por invisíveis laços de respeito mútuo e bom senso. Oxalá eles agora se estendam a toda uma classe que precisa ser reerguida.
Não nos esqueçamos jamais do tempo que passamos juntos, das lições aprendidas, retornemos mentalmente ao clínicas, sempre que necessário. Pois tenho certeza ali encontraremos exemplos de conduta e dignidade, da medicina que vale a pena, enfim da coisa certa a fazer.
Não permitamos que nosso conhecimento e distinção sirvam de passaporte para um mundo de alienações e privilégios, mas que sejam, isto sim, as ferramentas para as mudanças que tanto queremos e necessitamos.
Continuemos sempre com a mesma determinação e perseverança com que chegamos até aqui que nós iremos muito longe e teremos muito sucesso, cada qual no seu caminho, que embora não seja simples nem perfeito, será muito compensador. Disso eu não tenho a mínima dúvida.
Termino, pedindo a Deus, que nos ilumine todos os dias, ao longo desta trajetória pela ciência/arte na tão nobre função de cuidar de nossos semelhantes. Que ele permita que a medicina seja o nosso sustento e a nossa inspiração, uma fonte constante e inesgotável de saúde e felicidade para todos.
Era o que tinha a dizer, muito obrigado.”
Ótimas palavras para reflexão.